quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Interpretação de sermão Padre Antônio Vieira - Sermão de Santo Antônio (aos peixes)


Sermão de Santo Antônio (aos peixes)

Neste sermão, Vieira utiliza seu poder argumentativo para tratar da tarefa do pregador em uma terra corrompida. 

Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os Pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra, o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem; ou é porque o sal não salga, e os Pregadores se pregam a si, e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. [...] 
Suposto, pois, que, ou o sal não salgue, ou a terra se não deixe salgar; que se há de fazer a este sal, e que se há de fazer a esta terra? O que se há de fazer ao sal, que não salga, Cristo o disse logo: [...] Se o sal perder a substância e a virtude, e o Pregador faltar à doutrina, e ao exemplo; o que se lhe há de fazer, é lançá-lo fora como inútil, para que seja pisado de todos. Quem se atrevera a dizer tal coisa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência, e de ser posto sobre a cabeça, que o Pregador, que ensina e faz o que deve; assim é merecedor de todo o desprezo, e de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra, ou com a vida prega o contrário. 
Isto é o que se deve fazer ao sal, que não salga. 

VIEIRA. Antônio. In: PÉCORA. Alcir (Org.). Sermões. Tomo I. 
São Paulo: Hedra. 2000. p. 317-318. (Fragmento). 

1. Nesse sermão, os pregadores são comparados ao sal da terra. Qual é, segundo o texto, a função daquele que prega? 
a) Vieira inicia o sermão com a fala de Cristo aos pregadores para fazer um questionamento aos seus ouvintes. Qual é ele? 
b) Por que esse questionamento é, na verdade, uma estratégia para iniciar o raciocínio apresentado ao longo do texto? 

2. Releia: "Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar." 
a) Quais são os motivos apontados por Vieira para explicar por que a pregação não consegue eliminar a corrupção? 
b) Segundo o texto, que razões têm os fiéis para não acatarem as palavras dos pregadores? 
c) De que recurso estilístico Vieira se vale para construir a sua argumentação? Explique. 
d) Como esse recurso contribui para que a argumentação seja eficaz? 

3. Qual é a conclusão a que Vieira chega sobre o pregador? 

4. Você acha que as colocações feitas por Vieira permanecem válidas até hoje? Nos dias atuais, ainda é possível identificar "o sal que não salga" e "a terra que não se deixa salgar"? Explique.


Gabarito:

1. Os pregadores têm a função de impedir, com suas palavras, que a corrupção se dissemine entre os seus fiéis. 
a) Vieira questiona seus ouvintes sobre as causas da corrupção que toma conta da terra, já que há tantos pregadores que deveriam impedi-la ("mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?"). 
b) O questionamento que faz aos seus ouvintes serve para enfatizar a afirmação que fará a seguir, apresentando o que ele considera as duas causas ("o sal que não salga" e "a terra que não se deixa salgar") para a corrupção que vê na sociedade em que vive. 

2.
a) Vieira identifica os seguintes motivos para que os pregadores não cumpram sua função: não pregam a verdadeira doutrina; dizem uma coisa e fazem outra; pregam a si mesmos e não a Cristo em seus sermões. 
b) Segundo o texto, "a terra não se deixa salgar" porque: os ouvintes não querem receber a verdadeira doutrina; querem imitar as atitudes incorretas dos pregadores e não seguir seus ensinamentos; servem aos seus próprios apetites em lugar de servir a Cristo. 
c) Vieira constrói toda a sua argumentação a partir de paralelismos, por meio da repetição de estruturas sintáticas: a cada período, repete cada uma das partes da afirmação destacada no enunciado dessa questão ("ou é porque o sal não salga",! "ou porque a terra se não deixa salgar") seguida da causa para a corrupção que identifica. 
d) A retomada por meio das estruturas paralelísticas, além de enfatizar os argumentos de Vieira, conduz o raciocínio do ouvinte para que ele chegue à conclusão a que o padre deseja. 

3. Vieira conclui que o pregador que não cumpre sua função de forma adequada deve ser lançado fora "como um inútil, para que seja pisado de todos", conforme disse Cristo. Segundo ele, ninguém é mais merecedor de desprezo que o pregador que "com a palavra, ou com a vida prega o contrário" daquilo que deve ensinar e fazer. 

4. Resposta pessoal. Seria interessante que os alunos percebessem que o sermão de Vieira permanece bastante atual. É possível identificar, hoje, tanto os pregadores religiosos que não cumprem sua função (porque pregam uma coisa e fazem outra ou porque não são ouvidos pelos fiéis), quanto os fiéis que não seguem os ensinamentos da religião a que pertencem. Além disso, seria possível associar esses pregadores e fiéis a outras figuras da atualidade: por exemplo, políticos que fazem promessas antes das eleições e não as cumprem; cidadãos que seguem uma ética particular quando se trata de cumprir deveres ou que adotam uma postura indiferente porque não acreditam mais na política ou nas instituições públicas. 




Referência: Português - Contexto, Interlocução e Sentido (Editora Moderna)
Imagem: Google
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