quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Interpretação de conto Mia Couto (Inundação)



Inundação

Há um rio que atravessa a casa. Esse rio, dizem, é o tempo. E as lembranças são peixes nadando ao invés da corrente. Acredito, sim, por educação. Mas não creio. Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem. Vos guio por essa nuvem, minha lembrança. 
A casa, aquela casa nossa, era morada mais da noite que do dia. Estranho, dirão. Noite e dia não são metades, folha e verso? Como podiam o claro e o escuro repartir-se em desigual? Explico. Bastava que a voz de minha mãe em canto se escutasse para que, no mais lúcido meio-dia, se fechasse a noite. Lá fora, a chuva sonhava, tamborileira. E nós éramos meninos para sempre. 
Certa vez, porém, de nossa mãe escutamos o pranto. Era um choro delqadinho, um fio de água, um chilrear de morcego. Mão em mão, ficamos à porta do quarto dela. Nossos olhos boquiabertos. 
Ela só suspirou: 
 Vosso pai já não é meu. 
Apontou o armário e pediu que o abríssemos. A nossos olhos, bem para além do espanto, se revelaram os vestidos envelhecidos que meu pai há muito lhe ofertara. Bastou, porém, a brisa da porta se abrindo para que os vestidos se desfizessem em pó e, como cinzas, se enevoassem pelo chão. Apenas os cabides balançavam, esqueletos sem corpo. 
 E agora - disse a mãe -, olhem para estas cartas. 
Eram apaixonados bilhetes, antigos, que minha mãe conservava numa caixa. Mas agora os papéis estavam brancos, toda a tinta se desbotara. 
 Ele foi. Tudo foi. 
Desde então, a mãe se recusou a deitar no leito. Dormia no chão. A ver se o rio do tempo a levava, numa dessas invisíveis enxurradas. Assim dizia, queixosa. Em poucos dias, se aparentou às sombras, desleixando todo seu volume. 
 Quero perder todas as forças. Assim não tenho mais esperas. 
 Durma na cama, mãe. 
 Não quero. Que a cama é engolidora de saudade. 
E ela queria guardar aquela saudade. Como se aquela ausência fosse o único troféu de sua vida. 
Não tinham passado nem semanas desde que meu pai se volatilizara quando, numa certa noite, não me desceu o sono. Eu estava pressentimental, incapaz de me guardar no leito. Fui ao quarto de meus pais. Minha mãe lá estava, envolta no lençol até à cabeça. Acordei-a. O seu rosto assomou à penumbra doce que pairava. Estava sorridente. 
 Não faça barulho, meu filho. Não acorde seu pai. 
 Meu pai? 
 Seu pai está aqui, muito comigo. 
Levantou-se com cuidado de não desalinhar o lençol. Como se ocultasse algo debaixo do pano. Foi à cozinha e serviu-se de água. Sentei-me com ela, na mesa onde se acumulavam as panelas do jantar. 
 Como eu o chamei, quer saber? 
Tinha sido o seu cantar. Que eu não tinha notado, porque o fizera em surdina. Mas ela cantara, sem parar, desde que ele saíra. E agora, olhando o chão da cozinha, ela dizia: 
 Talvez uma minha voz seja um pano; sim, um pano que limpa o tempo. 
No dia seguinte, a mãe cumpria a vontade de domingo, comparecida na igreja, seu magro joelho cumprimentando a terra. Sabendo que ela iria demorar eu voltei ao seu quarto e ali me deixei por um instante. A porta do armário escancarada deixava entrever as entranhas da sombra. Me aproximei. A surpresa me abalou: de novo se enfunavam os vestidos, cheios de formas e cores. De imediato, me virei a espreitar a caixa onde se guardavam as lembranças de namoro de meus pais. A tinta regressara ao papel, as cartas de meu velho pai se haviam recomposto? Mas não abri. Tive medo. Porque eu, secretamente, sabia a resposta. 
Saí no bico do pé, quando senti minha mãe entrando. E me esgueirei pelo quintal, deitando passo na estrada de areia. Ali me retive a contemplar a casa como que irrealizada em pintura. Entendi que por muita que fosse a estrada eu nunca ficaria longe daquele lugar. Nesse instante, escutei o canto doce de minha mãe. Foi quando eu vi a casa esmorecer, engolida por um rio que tudo inundava. 

COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 25-27. 


Glossário 
Repleção: repleto, cheio. 
Tamborileira: que produz som ou ruido semelhante ao de um tamborim. 


1. Nessa narrativa breve, a história apresenta um conteúdo lírico, estabelecido com base na recriação da realidade. 

a) Resuma, de forma objetiva, o fio narrativo (enredo) que compõe a história. 
b) Que recursos utilizados no conto tornaram a linguagem conotativa, poética? 

2. No primeiro e segundo parágrafos, o narrador já introduz o fantástico no relato dos fatos, ao passar da recriação de uma realidade mais objetiva para a criação de um mundo fantasioso, imaginário. 

a) Explique por que o rio simboliza o tempo e os peixes representam as lembranças. 
b) Segundo o narrador, as lembranças dele podiam inundar o céu e não o rio. Por quê? 

3. Observe o emprego dos elementos coesivos no início do terceiro parágrafo. 

a) Que sentido expressam a locução adverbial "certa vez" e a conjunção porém em relação ao contexto? 
b) De acordo com o conteúdo, por que foram empregados tais elementos de coesão? 

4. Como se observou, há nesse conto uma recriação lírica, fantasiosa da realidade. 

a) Do quarto ao décimo terceiro parágrafo, de que modo o narrador recria o comportamento da mãe, que foi abandonada pelo marido? 
b) A partir do décimo quarto parágrafo, por que a mãe começa a ter um comportamento diferente? 
c) O que você acha que aconteceu no último parágrafo? 

5. No texto, há palavras empregadas com mais de um sentido. Explique o significado das palavras destacadas, que ora estão em sentido conotativo, ora em sentido denotativo. 

a) "A ver se o rio do tempo a levava [...]". 
b) ''[...] engolida por um rio que tudo inundava." 
c) "Desde então, a mãe se recusou a deitar no leito." 
d) ''[...] deitando passo na estrada de areia." 
 
6. Nomeie a figura de linguagem que cada termo destacado representa. 

a) "Como podiam o claro e o escuro repartir-se em desigual?"  
b) "Lá fora, a chuva sonhava, tamborileira." 
c) "Certa vez, porém, de nossa mãe escutamos o pranto." 



Gabarito:

1.
a) O narrador relata o sofrimento de sua mãe quando seu pai a abandonou. 
b) O emprego de figuras de linguagem (metáfora, comparação, personificação, antítese, etc.) e de polissemia (palavra empregada com mais de um sentido); o conteúdo subjetivo (o tema aborda o sentimento de perda e de abandono do ente amado e suas consequências); a exploração da fantasia e do mistério. 

2.
a) Na casa onde o narrador viveu a infância, parece que o tempo passava ligeiro, pois a mãe logo trazia a noite com seu canto. Por isso, o tempo é comparado a um rio que carrega as lembranças (ou peixes) rapidamente. 
b) Para ele, suas lembranças eram aves livres, pois assim poderiam voar e voltar. Como peixes, elas se perderiam na correnteza. 

3.
a) A locução adverbial "certa vez" remete o leitor a uma nova situação em determinado momento ou tempo. A conjunção adversativa porém expressa uma oposição ou situação contrária à anterior. 
b) Novos fatos ocorrem a partir desse parágrafo. No começo, o narrador divagava sobre o tempo, a casa e a infância. No terceiro parágrafo, começa a contar a separação dos pais e como a mãe reagiu. Portanto, foi o início de uma vida familiar diferente. 

4.
a) Utilizando metáforas que simbolizam o desaparecimento dos antigos vestidos dados a ela pelo marido e das palavras apaixonadas em velhos bilhetes de amor. Depois, ela se entrega à tristeza e não mais se cuida. 
b) A saudade do marido a faz imaginar a presença dele, e ela volta a cantar e a ter fé. Por isso os vestidos e as cartas voltam a existir. 
c) Pessoal. Sugestão: Como a mãe havia dito antes, possivelmente sua voz era como um pano que apagava o tempo. Por isso, apagou todas as lembranças (os peixes) e o tempo (o rio). Dessa forma, também "apagou" a casa, que se foi. 

5.
a) A ver se o passar do tempo a levava [...]. 
b) [...] engolida por um curso de água natural que tudo inundava. 
c) Desde então, a mãe se recusou a repousar no leito. 
d) [...] acelerando o passo na estrada de areia.

6.
a) Antítese.
b) Personificação ou prosopopeia. 
c) Hipérbato. 




Referência: Oficina de Redação (Editora Moderna)
Imagem: Google
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